Em um tempo antigo na Namíbia, quando os animais falavam e a astúcia definia a sobrevivência, um episódio curioso explicou a origem do pescoço curvado da garça, uma história passada de geração em geração entre o povo da região.

Certo dia, um chacal caçava entre as rochas quando avistou uma pomba em um saliente inalcançável. Com fome, o chacal clamou: “Pequena pomba, estou com fome. Lance-me um de seus filhotes.”

“De maneira alguma,” respondeu firmemente a pomba.

“Então, subirei até aí e devorarei você também,” ameaçou o chacal.

Diante da ameaça, a ingênua pomba, tomada pelo medo, lançou um de seus filhotes ao chacal, que se afastou satisfeito com a presa.

No dia seguinte, enfrentando a mesma ameaça, a pomba sacrificou outro filhote. Aflita, chorava amargamente quando uma garça, que passava, a ouviu.

“Por que choras?” perguntou a garça.

“Lamento pelos meus pobres filhotes. Se não os entrego ao chacal, ele promete me devorar,” explicou a pomba.

“Que tolice,” retrucou a garça. “Como ele poderia voar até você sem asas? Não deve ceder a ameaças tão absurdas.”

Inspirada, no dia seguinte, a pomba rejeitou ceder a mais um filhote. “A garça me disse que você não pode voar,” desafiou o chacal.

“Irei acertar as contas com essa intrometida garça,” murmurou o chacal, partindo em busca de vingança.

Encontrando a garça à beira de um lago, o chacal comentou: “Que longo pescoço você tem. E se o vento soprar forte, não quebrará ao meio?”

“Abaixo um pouco,” respondeu a garça, demonstrando.

“E se o vento soprar mais forte?” indagou o chacal.

“Então, abaixo ainda mais,” disse a garça.

“E se soprar um vendaval?” insistiu o chacal.

“Abaixo até aqui,” declarou a garça, curvando a cabeça até a margem.

Aproveitando-se do momento, o chacal atacou o pescoço da garça com tanta força que o quebrou. Desde aquele dia, a garça carrega o pescoço curvado como um eterno lembrete daquele encontro.

Análise no Contexto Africano:

Esta história, além de ser uma colorida tapeçaria do folclore africano, ressalta a astúcia como uma ferramenta de sobrevivência na natureza. Ela reflete sobre a importância de discernir entre verdadeiras ameaças e meras intimidações, uma lição valiosa tanto no reino animal quanto nas relações humanas.

A garça, com sua intervenção sábia, simboliza a importância da ajuda e do conselho na superação de adversidades, enquanto o chacal representa a astúcia que, quando usada para o mal, pode trazer consequências indesejáveis.

Essa lenda ensina sobre as consequências dos atos e a importância de pensar criticamente diante das ameaças, reforçando valores comunitários de apoio mútuo e proteção contra enganos. Ao mesmo tempo, destaca a resiliência e a adaptação como qualidades essenciais para a sobrevivência no contexto diversificado e desafiador do continente africano.