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Wanjiru, a Donzela – Conto Africano

Sob o sol inclemente, a terra sofria; não chovia.

As colheitas secavam e a fome se alastrava entre o povo.

Isso ocorreu um ano, depois no seguinte, e ainda por um terceiro ano.

Assim, o povo se reuniu no local de oração, questionando entre si a causa de tal infortúnio; então, levaram a questão ao Curandeiro.

Ele derramou o conteúdo de sua cabaça no solo, repetidas vezes.

Então, declarou que as chuvas só viriam quando a donzela Wanjiru fosse oferecida.

Ele instruiu que cada um, do jovem rapaz ao homem mais velho, deveria trazer, no dia marcado, uma cabra para adquirir Wanjiru de sua família.

Chegado o dia, todo o povo estava presente, cada homem conduzindo uma cabra.

Reunidos em círculo, os parentes de Wanjiru agruparam-se, e ela mesma ficou ao centro.

Enquanto lá estavam, Wanjiru começou a afundar no solo.

Logo estava até os joelhos. Ela gritou, “Estou perdida!” O povo se apertou e entregou cabras aos pais de Wanjiru.

Ela afundou até a cintura. Novamente exclamou, “Estou perdida, mas muita chuva cairá!” Mais cabras foram entregues à sua família.

Ela afundou até o peito, e ainda sem chuva. Wanjiru gritou mais uma vez, “Uma grande chuva virá!”

Agora ela afundou até o pescoço, e então a chuva desabou.

O povo deveria ter avançado para salvá-la, mas, em vez disso, colocaram mais cabras para a família.

Então Wanjiru disse, “Meu povo me condenou”, e ela afundou até os olhos.

Quando um ou outro de sua família tentava salvá-la, alguém do povo lhes apresentava uma cabra, e o membro da família recuava.

Wanjiru clamou pela última vez, “Minha própria família me condenou!” E então ela desapareceu de vista.

A chuva desceu em um grande dilúvio e o povo correu em busca de abrigo em suas casas.

Havia um jovem guerreiro que lamentava a perda de Wanjiru.

Jurou encontrá-la e trazê-la de volta. Vagou por muito tempo, até retornar ao local onde Wanjiru havia desaparecido.

Ali, ao se posicionar onde ela estivera, começou a afundar no solo; e afundou cada vez mais até que a terra o engoliu.

Encontrou-se numa estrada subterrânea, e ao percorrê-la, deparou-se com Wanjiru, toda enlameada e desgrenhada, sem suas vestes que haviam se desintegrado.

Ele a ergueu e carregou-a nas costas até o ponto onde haviam afundado.

Ali, emergiram juntos ao ar livre.

Levou-a à casa de sua mãe, onde ela foi alimentada com a gordura das cabras abatidas e vestida com suas peles, até que novamente se tornou bela e bem-vestida.

Ocorreu que a aldeia estava em festa, e ela e seu guerreiro compareceram.

Quando sua família a viu, tentou se aproximar, mas seu amante os afastou.

Quando a família insistiu nos dias seguintes, o guerreiro se arrependeu.

Pagou à família o preço de compra (lobolo) e permitiu que se reconciliassem.

Este conto, rico em simbolismo e ensinamentos, reflete a profunda conexão entre sacrifício, comunidade e os ciclos naturais na cosmovisão africana. Wanjiru, mais do que uma personagem, representa a interseção entre o humano e o divino, a terra e o céu. A história destaca a importância da responsabilidade coletiva e individual, além de trazer à tona a crítica à ganância e ao esquecimento dos verdadeiros valores que sustentam uma comunidade. O desfecho, com a redenção através do amor e do sacrifício pessoal do guerreiro, oferece uma mensagem de esperança e renovação, reiterando o poder do perdão e da reconciliação.

Como a Zebra Ganhou Suas Listras – Conto Africano

Esta é uma história africana, contada pelos San, ou Bosquímanos, do Deserto do Kalahari na Namíbia, sobre a origem das listras da zebra.

Muitas lendas africanas buscam explicar as características únicas ou o comportamento dos animais selvagens. Portanto, como a zebra adquiriu suas listras pretas, ou seriam brancas? Deixe-me contar-lhes a fábula.

Era uma vez, quando os animais ainda eram novidades na África e o clima extremamente quente, a água era um bem escasso, limitando-se a poucas poças e reservatórios.

Uma dessas fontes de água era vigiada por um babuíno barulhento, que se autoproclamava “senhor da água” e proibia qualquer um de beber de sua reserva.

Num belo dia, uma zebra e seu filho aproximaram-se para beber água, mas foram prontamente confrontados pelo babuíno, que, sentado ao lado de sua fogueira próxima ao poço, ergueu-se e gritou com voz potente: “Afastem-se, intrusos. Esta é minha água e eu sou o senhor dela.”

“A água é de todos, não apenas sua, cara de macaco,” retrucou o filho da zebra.

“Se quiser um pouco da água, terá que lutar por ela,” respondeu o babuíno, enfurecido, iniciando um combate feroz entre os dois.

A luta levantou uma nuvem de poeira, até que, com um chute poderoso, a zebra lançou o babuíno contra as rochas do penhasco atrás deles. O babuíno aterrissou com força, removendo todo o pelo de seu traseiro, deixando até hoje a área sem pelos onde pousou.

O jovem zebra, cansado e machucado, sem olhar por onde ia, recuou através da fogueira do babuíno, que o queimou, marcando seu pelo branco com listras negras de queimadura.

O susto das queimaduras fez com que a zebra galopasse para as planícies da savana, onde permaneceu desde então.

O babuíno e sua família, no entanto, permanecem nas alturas das rochas, onde desafiam todos os estranhos com seus gritos. E, ao caminhar, ainda levantam suas caudas para aliviar a dor das queimaduras nas nádegas sem pelo.

Esta narrativa, além de ser um rico exemplo do folclore africano, ilustra a interação dinâmica entre os seres do ambiente selvagem africano e os elementos naturais. Reflete sobre a disputa pelo recurso vital que é a água, um tema ainda relevante no contexto africano contemporâneo, onde a escassez de água é uma realidade em muitas regiões.

A história da zebra e suas listras, além de ser uma fábula encantadora, carrega em si lições de resiliência e adaptação. Demonstra como os animais (e, por extensão, as comunidades humanas) devem navegar e negociar seu espaço e recursos em um ambiente muitas vezes inóspito.

O simbolismo do babuíno e da zebra em conflito por recursos naturais ressoa com as questões de conservação e sustentabilidade enfrentadas por muitas comunidades africanas, destacando a importância da coexistência pacífica e do respeito mútuo entre todas as formas de vida.

A Tartaruga e o Lagarto – Conto Africano

Em um tempo em que a harmonia da vida selvagem era frequentemente desafiada pela astúcia e pela sobrevivência, vivia uma tartaruga que se deparou com uma escassez de sal. Sem ele, suas refeições tornaram-se insípidas, levando-o a buscar ajuda com seu irmão, que tinha sal de sobra.

“Como farei para transportar o sal até minha casa?” perguntou a tartaruga.

“Se você embrulhá-lo em um pedaço de tecido de casca e amarrá-lo com uma corda, posso colocar a corda sobre meu ombro e arrastar o pacote atrás de mim,” propôs a amiga tartaruga.

“Ideia genial!” exclamou seu irmão, e juntos prepararam o sal em um pacote ordenado.

Assim, a tartaruga iniciou sua jornada lenta de volta para casa, com o pacote esbarrando no chão atrás dela.

Repentinamente, seu avanço foi interrompido por um grande lagarto que havia saltado sobre o pacote de sal, reivindicando-o para si sob a premissa de que o encontrara pelo caminho.

“Desça do meu sal!” exclamou a tartaruga. “Como espera que eu o leve para casa com você em cima?”

“Não é seu sal!” replicou o lagarto. “Eu estava apenas caminhando pela trilha quando encontrei este pacote, então tomei posse dele e agora ele me pertence.”

Após uma troca acalorada de palavras, concordaram em levar o caso aos anciãos da aldeia para um julgamento justo.

Os anciãos, após ouvirem ambos os lados, e influenciados por laços familiares com o lagarto, decidiram dividir o sal ao meio, deixando a tartaruga com uma parte menor e menos protegida pelo tecido, fazendo com que a maior parte de seu sal se espalhasse pelo chão.

A tartaruga, embora desapontada e injustiçada, partiu para casa com apenas uma fração de seu sal, embrulhado em folhas e o que restava do tecido.

A esposa da tartaruga ficou desapontada com o pouco sal que ele conseguiu trazer e indignada com o tratamento que ele recebeu. A longa jornada havia exaurido a tartaruga, que precisou de dias para se recuperar.

No entanto, a tartaruga, apesar de lenta, era astuta e logo elaborou um plano para se vingar do lagarto.

Depois de alguns dias de descanso, a tartaruga partiu em direção à casa do lagarto. Ao encontrá-lo desfrutando de uma refeição solitária de formigas voadoras, a tartaruga o surpreendeu, reivindicando-o como sua propriedade, seguindo a lógica anterior do lagarto sobre o sal.

Levando o caso aos anciãos, estes, buscando manter a consistência com o julgamento anterior, decidiram dividir o lagarto ao meio, permitindo que a tartaruga ficasse com uma parte.

E assim, a tartaruga executou o lagarto com rapidez, pondo fim à sua ganância.

Este conto do povo africano não só encanta com sua narrativa engenhosa, mas também reflete profundamente sobre a justiça, a astúcia e as consequências dos nossos atos. Ilustra a importância de resolver disputas de maneira justa e ponderada, destacando o valor da equidade e da responsabilidade em uma comunidade. A tartaruga, com sua persistência e inteligência, serve como um lembrete da eficácia da sabedoria e da paciência diante da adversidade, enquanto o trágico destino do lagarto adverte contra a ganância e a desonestidade.

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